quinta-feira, 19 de agosto de 2010

PARTE 01 - CAPÍTULO 02

PARTE 01

CAPÍTULO 02 /10

O cheiro era terrível. A multidão de malfeitores, desqualificados, jovens com cabelos duvidosos e péssimo gosto cromático para calças assustaria até o mais corajoso e preparado justiceiro. Mas quem descia no Terminal do Guadalupe do coletivo “Colombo/Curitiba (Rodovia da Uva)” não era um reles justiceiro. Trata-se do mais renomado assassino em nome da justiça do sul do mundo. O nome dele: Cafézinho.

Por muitos anos, Cafézinho foi apenas um mulato, de estatura mediana, porte mediano, conhecimento mediano e que levava uma vida mediana. Quando questionados sobre o que achavam de Cafézinho, todos os amigos falavam: “ah, o Cafézinho é um cara legal.” E só. Ele também não era tão legal para receber nenhum elogio além disso.

E isso nunca incomodou Cafézinho. Até o dia em que ele completou 15 anos, assim como sua irmã, conhecida na vizinhança como Sonho de Valsa. Diferentemente de Cafézinho, Sonho de Valsa não era nada mediana. Era a típica mulata brasileira, padrão globeleza de importação.

Quando debutou, Sonho de Valsa passou a chamar ainda mais a atenção dos amigos e conhecidos de Cafézinho. Logo as brincadeiras surgiram. Era um tal de “Cafézinho, se sua irmã não tiver aonde fazer coco pode falar para ela passar lá em casa. Meu vaso se sentiria honrado em conhecer tal bunda” ou “Cafézote meu nobre. Tá afim de trocar minhas três tias, minhas duas primas e minha pintcher pela sua irmã? Olha, eu acho que a pintcher tá até prenha!”.

As gracinhas foram tantas que Cafézinho foi se transformando. Seu semblante não era mais o mesmo. Seu olhar não era mais o mesmo. Até seu cabelo não era mais o mesmo, e agora estava repleto de pontas duplas. Cafézinho se transformou em um homem vingativo e agressivo. Com medo de sair do caminho correto, decidiu usar toda a raiva reprimida pelo bem. Certo dia, descobriu que um dos palhaços que mexia com a sua irmã era ligado ao tráfico de isqueiros contrabandeados do Paraguai. Digamos, que certo dia, sem motivo aparente, o conteúdo do porta malas do Voyage 82 esquentou demais e os 887 isqueiros cheios de fluído altamente inflamável mandaram o veículo pelos ares.

Desde então, Cafézinho extravasa seu ódio fazendo o bem e dando um jeito em quem não presta.

Há algumas semanas, ele recebeu um telegrama de uma garota de programa curitibana. O nome dela é Mortadela. Bem, provavelmente esse não é o nome dela, mas foi o nome que me foi dito. Mortadela alegava estar presa à um complicadíssimo sistema de prostituição conhecido como “Rifa Puta”. Ela dizia na carta que queria parar, mas um homem mal, chamado Teddy Batatinha não permitia que ela finalmente voltasse para o convento.

Cafézinho nem pensou. Pegou sua faca do exército israelita, presente de um amigo peruano que vivia na Bolívia e que muitas coisas trazia de lá. Pegou sua boina cubana, presente de um ex-petista, tucano reformado. E pegou o último exemplar da revista Caras, afinal ele tem um intestino curioso que não lhe permite fazer coco sem ler alguma coisa.

Os destinos de Cafézinho e Teddy Batatinha estavam prestes a se cruzar.